A usina vende por tonelada, a obra é medida em metro cúbico
A nota fiscal do CBUQ vem em toneladas. O projeto está em metros quadrados e centímetros. Tudo que é difícil em orçar asfalto mora nesse vão, e a ponte entre os dois é um número só: a massa específica aparente da mistura compactada.
Para concreto betuminoso usinado a quente de capa de rolamento, esse número gira em torno de 2,4 t/m³. Traduzindo para a unidade que a obra usa: cada centímetro de camada compactada pesa 24 kg por metro quadrado. Uma capa de 4 cm consome 96 kg/m², e mil metros quadrados de via consomem 96 toneladas. A partir daí é regra de três.
O que quebra o orçamento é tratar 2,4 como constante da natureza. É um valor de planejamento para uma família de misturas. CPA — camada porosa de atrito, feita justamente para a água atravessar — fica perto de 2,0 t/m³. PMF, o pré-misturado a frio de tapa-buraco, ronda 2,1. Fresado recompactado fica ainda mais leve. Aplicar 2,4 numa CPA compra quase 20% de massa a mais do que o serviço absorve, e essa diferença é paga do mesmo jeito.
O número que vale sai do projeto de mistura da usina: densidade Marshall de projeto, corrigida pelo grau de compactação exigido em campo, que a especificação do DNIT trata na faixa de 97% para cima. Peça o boletim e digite o valor. Uma calculadora que esconde a densidade no código não pode ser corrigida por quem tem o dado na mão.
Fator de compactação multiplica volume, não tonelada
Este é o erro que mais dinheiro custa em pavimentação, e ele está embutido em uma quantidade surpreendente de planilhas e calculadoras.
A massa asfáltica sai da usina cheia de ar. O rolo tira esse ar e a camada perde da ordem de 20% a 25% de altura. Isso é real e importa. O que não existe é aplicar esse mesmo fator sobre o peso: massa se conserva na compactação, volume não. E 2,4 t/m³ já é a densidade depois de rolada. Multiplicar a tonelagem por 1,25 depois disso compra 25% a mais de CBUQ. Numa obra de 200 toneladas são 50 toneladas de massa quente sem destino, e massa quente não volta para a usina.
A redução na compactação tem uma função concreta, e ela está na regulagem da mesa da vibroacabadora. Para entregar 5 cm acabados, a mesa lança cerca de 6,25 cm soltos. É por isso que se mede com a régua atrás da acabadora: encontrar 5,0 cm antes do rolo passar significa que a camada vai terminar com 4 cm, abaixo do projeto.
O único caso em que se multiplica é quando a densidade que você tem é a da massa solta, como ela está na caçamba. Aí sim o fator leva do volume solto ao compactado. Os dois sistemas são coerentes por dentro; o erro é misturar. Esta ferramenta pergunta se a espessura digitada é a acabada ou a de lançamento e deduz a outra, em vez de adivinhar.
Espessura por tráfego e o limite que o agregado impõe
A espessura vem de duas coisas: o que passa por cima e o tamanho da pedra na mistura.
- Acesso residencial e estacionamento leve. Capa de 3 cm sobre base granular bem compactada. Funciona enquanto não entrar caminhão.
- Via urbana local. Capa de 4 cm em CBUQ faixa C sobre base de brita graduada. É o padrão de rua de bairro na maior parte das prefeituras.
- Via coletora e arterial. Capa de 4 a 5 cm sobre camada de ligação (binder) em faixa B, com o conjunto dimensionado pelo número N de tráfego, não por regra de bolso.
- Pátio de manobra e área de caminhão. É onde o pavimento morre primeiro. Carreta parada no mesmo ponto toda semana exige espessura e base de via arterial, mesmo que a área pareça um estacionamento.
O segundo limite é o agregado. Uma camada compactada precisa ter, na prática, ao menos duas a três vezes o diâmetro máximo do agregado da mistura para que as pedras consigam se rearranjar sob o rolo. Faixa C, com agregado até 19 mm, não desce bem abaixo de 3 cm. Faixa B, com pedra maior, pede mais. Abaixo desse limite a camada rasga atrás da mesa, não atinge o grau de compactação e desagrega em uma ou duas estações de chuva.
Vale conferir a especificação vigente antes de fechar a espessura de projeto: a norma de serviço do DNIT para concreto asfáltico foi revisada — a 031/2006-ES deu lugar à versão de 2024 — e projeto antigo copiado de memória é fonte constante de divergência em medição.
Imprimação e pintura de ligação: o custo que some do orçamento
Quase todo orçamento de pavimentação feito às pressas soma massa, frete e equipe, e esquece os ligantes intermediários. Eles são baratos por metro quadrado e caros de omitir, porque sem eles a camada não adere e o serviço volta.
- Imprimação. Vai sobre a base granular, com asfalto diluído tipo CM-30, em taxa da ordem de 0,8 a 1,6 litro por metro quadrado. Função é impermeabilizar e amarrar a superfície solta da brita. Precisa de tempo de cura antes da massa entrar — dia de obra, não hora de obra.
- Pintura de ligação. Vai entre duas camadas asfálticas, ou sobre pavimento existente em recapeamento, com emulsão RR-1C ou RR-2C diluída, tipicamente 0,4 a 0,6 litro por metro quadrado de emulsão. Sem ela, capa e binder trabalham como duas placas independentes e a capa escorrega em frenagem e em curva.
Em recapeamento, some ainda a fresagem: retirar 3 a 5 cm do pavimento velho antes de aplicar o novo evita levantar o nível acima do meio-fio e das tampas. O fresado tem valor — muitas prefeituras e usinas compram ou aceitam abatimento — e isso raramente entra na conta.
A base decide a vida do pavimento — e come massa asfáltica
Pavimento asfáltico é flexível. Ele distribui a carga sobre o que está embaixo; não vence vão nem tapa ponto mole. Se o subleito cede, a capa cede junto, e não existe espessura de CBUQ que compense base ruim — só existe conta maior.
Base de brita graduada compactada e verificada, subleito com suporte conferido, e caimento transversal de pelo menos 2% para a água sair. Água parada sob o revestimento é o que mata pavimento no Brasil, muito mais que carga: é ela que produz o couro de jacaré e o afundamento de trilha de roda que aparecem sempre nos mesmos pontos.
Base irregular também consome massa direto do bolso. A vibroacabadora preenche a depressão antes de construir espessura, então tudo que está baixo vira CBUQ que não aparece como altura. Meio centímetro de irregularidade média em 1.000 m² são cerca de 12 toneladas a mais — material de primeira linha enterrado num serviço de nivelamento que a motoniveladora teria feito por uma fração do preço.
Temperatura: da usina até o fim da janela de compactação
O CBUQ com CAP 50/70 sai da usina na casa dos 150 °C. A aplicação não deve começar abaixo de aproximadamente 140 °C, e a janela de compactação se fecha quando a camada cai para perto de 90 a 100 °C — abaixo disso o ligante enrijece e o rolo deixa de movimentar agregado, por mais passadas que dê.
Quanto tempo essa janela dura depende sobretudo da espessura. Camada de 5 cm segura calor por bastante tempo. Camada de 2 a 3 cm em dia frio e com vento perde a janela em poucos minutos — segundo motivo, independente do primeiro, para camada fina dar errado. E chuva ou base molhada encerra o serviço: massa quente sobre superfície úmida não adere, e o remendo aparece no primeiro inverno.
A distância da usina é restrição de projeto, não detalhe logístico. Caçamba lonada e viagem curta; usina a mais de uma hora e meia da frente de serviço muda o que dá para aplicar por dia. Nada disso altera a tonelagem, mas decide se a tonelagem comprada vira pavimento ou vira camada que nunca atingiu densidade.
Por que sobra massa — e por que às vezes falta
Mesmo com orçamento bem-feito sobra material, e vale saber por onde ele vai para calibrar a perda.
- Borda irregular e perímetro curvo nunca batem com o retângulo que foi medido.
- Encontro com sarjeta, meio-fio, tampão e caixa de inspeção consome mais que a área aparente e é sempre remendo manual.
- Trecho aplicado à mão não compacta como a faixa da acabadora e acaba levando mais massa para chegar à cota.
- Massa que gruda na caçamba, sobretudo em viagem longa.
- A usina entrega em caminhão cheio. Basculante truck carrega em torno de 12 a 14 toneladas e carreta basculante 25 a 30. Pedir 41 toneladas significa três caminhões, um deles quase vazio, e carga parcial esfria mais rápido no caminho.
Quando o total fica pouco acima de uma carga cheia, costuma sair mais barato arredondar para o caminhão inteiro do que pagar viagem pela metade. E ter um pouco de massa sobrando na obra é melhor que parar a acabadora esperando: cada parada vira junta fria, e junta fria é defeito permanente.
Conferindo o ticket de balança contra a área executada
Cada caminhão chega com ticket de pesagem. Guarde, some e calcule de volta a espessura média que efetivamente foi aplicada:
espessura em cm = toneladas ÷ densidade em t/m³ ÷ área em m² × 100
Exemplo: 90 toneladas aplicadas em 1.000 m² com densidade 2,4 t/m³ dão 37,5 m³, que espalhados em 1.000 m² são 0,0375 m — 3,75 cm. Se o projeto pedia 4 cm, faltou massa, e o somatório dos tickets é o único lugar onde isso aparece antes da equipe ir embora.
Faça a mesma conta quando a tonelagem estoura: quase sempre significa que a base estava mais baixa que o previsto, e o rendimento diz exatamente quanto. Leva um minuto, não custa nada, e quase ninguém faz — o que é a razão de tanta medição de pavimentação terminar em discussão sem número.
Nada sai do seu navegador
Todo o cálculo é aritmética rodando no seu aparelho. Nada é enviado, nada é armazenado e não existe cadastro — as suas quantidades, o preço que a sua usina cobra e a sua margem não são da nossa conta.
Perguntas frequentes
Quantas toneladas de CBUQ dão em um metro quadrado?
Depende só da espessura e da densidade. Com massa específica aparente de 2,40 t/m³, cada centímetro de camada compactada pesa 0,024 t por metro quadrado — ou seja, 24 kg/m² por centímetro. Uma capa de 4 cm consome 0,096 t/m², e 1.000 m² de via com 4 cm de capa pedem 96 toneladas antes da perda. É por isso que a conta se faz em volume e só depois vira tonelada: a usina vende por peso, a obra é medida em área.
Preciso multiplicar a tonelagem pelo fator de compactação?
Não, e esse é o erro mais caro em orçamento de pavimentação. O fator de compactação (da ordem de 1,25) converte VOLUME solto em VOLUME compactado. A densidade de 2,4 t/m³ já descreve a massa depois de rolada, então multiplicar a tonelada por 1,25 de novo compra 25% de CBUQ a mais do que o pavimento comporta. A redução na compactação serve para regular a mesa da vibroacabadora e para conferir a espessura com a régua antes do rolo passar — não para dimensionar a compra.
Que densidade usar para CBUQ?
Massa específica aparente de CBUQ de capa costuma ficar entre 2,35 e 2,45 t/m³, mas o número que vale é o do projeto de mistura da usina, tirado do ensaio Marshall e corrigido pelo grau de compactação exigido em obra. Misturas diferentes fogem muito da faixa: CPA (camada porosa de atrito) fica perto de 2,0 t/m³, PMF em torno de 2,1 e fresado recompactado ainda menos. Usar 2,4 numa CPA compra quase 20% de massa a mais. Por isso o campo aqui é editável em vez de estar cravado no código.
Quanto de perda devo considerar?
De 5% a 10% resolve a maior parte dos casos. A perda vai para borda irregular, junta longitudinal e transversal, encontro com sarjeta e meio-fio, remendo manual em torno de tampão e caixa de inspeção — que nunca compacta como a faixa da acabadora — e massa que fica grudada na caçamba, principalmente em viagem longa ou dia frio. Área pequena e recortada pede os 10%; pátio grande e retangular aceita 5%. Faltar massa custa mais caro que sobrar: esperar o próximo caminhão cria junta fria, e junta fria é o ponto por onde o pavimento vai abrir.
O preço da tonelada de CBUQ é o custo total do serviço?
Não. A massa posto usina é só uma parte. Falta o frete, que é cobrado por tonelada e por quilômetro e pesa muito quando a usina está longe; a imprimação da base com asfalto diluído e a pintura de ligação com emulsão entre camadas; a equipe e o conjunto vibroacabadora mais rolos; e a preparação da base, que é o item que mais estoura orçamento quando o terreno não estava tão pronto quanto parecia. Esta calculadora dimensiona a massa e o custo dela — o resto entra no orçamento à parte.